Feito por nós
Aqui no Chou acreditamos que restaurante é um lugar onde se faz comida. Isso pode parecer redundante mas em tempos em que até a magnânima Gastronomia Francesa é assolada pelo uso de produtos industrializados, talvez seja importante reafirmar certos conceitos.
Por isso fazemos nós mesmos os nossos ingredientes de base: nosso pão, caldo, picles, iogurte, ricotta, tahine, duka, maionese, aioli, tapenade, marinada das carnes, temperos secos, raita, as sobremesas, o caramelo do café, limoncello. Gostaríamos imenso de fazer nossa própria massa, nosso sorvete, mas por enquanto não podemos.
Tudo o que sai da nossa cozinha foi preparado a partir de ingredientes frescos e apenas compramos de terceiros o que não podemos fazer. Cozinheiros devem cozinhar produtos frescos e não esquentar comida congelada no microondas ou abrir um pacote de pseudo-comida feita numa indústria.
Da série Feito Por Nós: Pão de verdade é fundamental. O nosso é feito todos os dias e assado no chão de tijolos do forno para que tenha uma boa crosta.
Manifesto do meu desejo
Desde muito antes da tradição bíblica conectar o oferecimento de comida a coisas sagradas, a partilha do sal, do pão e do vinho já estava envolta em significado e mística para muitas e muitas culturas.
Ainda hoje, repetimos cerimônias que removidas de seu contexto e dissolvidas pelo Tempo, se esvaziaram de sentido, transformaram-se em pálidas mímicas de algo que alguma vez foi poderoso e profundo.
A minha busca, minha Cruzada é a de alguma forma resgatar senão a mística específica envolvendo o ato de compartilhar e servir comida, ao menos o sentimento sagrado de celebração, partilha e simplicidade.
Meu espírito, mais do que meu corpo, se cansou da interminável “degustação gastronômica”, da sofisticada experimentação técnica e visual que é tão característica da culinária atual, ainda que também essa direção seja tão antiga quanto o Império Romano!
Para mim, uma refeição que aplaque minha fome tanto física quanto emocional, é uma que seja simples em forma, despretensiosa, abundante, variada, fresca, vibrante no sabor, servida com alegria, cuidado e sem arrogância e, sobretudo, desfrutada com abandono.
Nada da pompa e circunstância, e do fastidioso trabalho para deslumbrar o comensal. Nada de complicadas concocções e estruturas artísticas no prato. Nada de espumas ou reduções para mim. O que o meu espírito anseia é um bom e honesto prato de verduras assadas, frescas e luminosas em seu apogeu botânico; um quente e reconfortante purê de batatas, cremoso com manteiga e noz moscada; um suculento assado, absurdamente macio em sua simplicidade purista, um pedaço de um excelente queijo artesanal, singelamente acompanhado de uma fatia doce e crocante de fruta. Simplicidade e qualidade numa travessa de salada.
Bom vinho, bom café. Música para apaziguar as pressas. Pão crocante e quente para confortar a alma. E se tudo for servido com calidez e honestidade, se a companhia for divertida ou amável, então temos que nos perguntar, como Sêneca: quando hemos de viver, senão agora?
CADERNO DE COZINHA
Escrever veio antes da cozinha, mas aos poucos os livros de gastronomia foram ganhando espaço na minha estante junto com os de literatura. Brillat Savarin & Garcia Marques. Tem coisas que a gente não abandona.